Domingo, 15 de Março de 2009

Quando eu era (mais) nova, naquele ínicio parvo da adolescência, tinha horas de almoço demasiado longas na escola. Tão longas, que o disparate tomava conta de mim e eu arrastava todas as minhas amigas numa espiral de degradação e estupidez. Se já me estão a ver agarrada à seringa ou com grandes linhas paralelamente dispostas em tabuleiros de prata, esqueçam. A coisa mais estúpida que fazíamos eram emissões de televisão absolutamente fabulosas. O cenário era sempre o mesmo: a casa dos meus pais, ali ao lado da escola. O guarda-roupa, nada que saber: encontrava-se entre o meu armário e o da minha mãe, nunca abdicando nós de demoradas análises à roupa do meu irmão. Acredito que tudo isto tenha sido idealizado quando vi pela primeira vez a primeira câmara de vídeo do meu pai, uma gigantesca maquineta que gravava directamente para não menos enormes cassetes VHS.

E aquilo eram as quatro horas mais esperadas da semana: tínhamos novelas, noticiários, emissões especiais, entrevistas, desfiles de moda, entregas de prémios... Metade da acção decorria ao telefone, já que a ausência de homens para contracenar connosco era fatal nas cenas românticas.

 

Ontem, ao fazer zapping, esses bons velhos tempos voltaram a atacar-me a memória. Dei comigo a ver muito daquilo no Porto Canal. Enquanto nós desistimos e percebemos que aquilo não era vida, há pessoas que conseguiram levar o experimentalismo adolescente mais longe e transformá-lo numa realidade. Provavelmente o nosso erro foi apostar demasiado nos conteúdos e não fazer um departamento comercial que nos pudesse levar mais longe. Ao cabo, por exemplo. Um dia irei debruçar-me com mais profundidade sobre o canal em si. Assumo que não  consegui aguentar-me tempo suficiente em frente ao écrã para poder falar com um grande conhecimento da causa. Tirando pequenos flashes de programação que não levaram mais do que 5 segundos a passar, demorei-me algum tempo num programa de tertúlia onde um ex-Big Brother, um "socialite" do Porto, um empresário da noite e duas perfeitas desconhecidas (minhas em particular e, creio, do mundo em geral) debatiam alegremente a vida, os amores e a personalidade do Cristiano Ronaldo. Uma das moças (com um daqueles sotaques do Porto disfarçados por um pseudo-sotaque de Cascais) passava o tempo a mexer no cabelo e a... Nada, era mesmo só isso que fazia. 

 

E, ao ver isto, deu-me uma súbita vontade de reunir as tropas do antigamente e fazer programas dignos de um qualquer canal por cabo.    



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