Terça-feira, 18 de Agosto de 2009

Por pura insistência da avó paterna da criança, o meu afilhado não o foi só assim: a madrinha és tu. Não, tinha de meter honras clericais, que a criança vagueava no limbo, ora para cá, ora para lá. A única maneira de resolver tamanho problema na vida da criança seria despejar-lhe água benta cabeça abaixo e fazer com que ela fosse abençoada por alguém tão carne e osso como eu mas (pasmem-se!), com muito menos humanidade.

A comichão começou quando a "comadre" me comunica a necessidade de "falar com o padre". Sabe Deus (passo a ironia) o quanto eu gosto de ter diálogos com figuras eclesiásticas. Ora do serão em Valongo já todos sabem. Mas sabem o que me foi pedido? Ah, pois não. Para seres madrinha importa-me pouco o teu carácter. A capacidade que tens de dar carinho à criança,  a dedicação ao teu afilhado, o amor que lhe tens. Nem sequer me importa se és criminosa, mentirosa, intriguista ou uma sacana de primeira.  Trazes é uma certidão de idoneidade e logo vemos se tens aquilo que é preciso para seres madrinha.

Ora e como é que se consegue tal documento?

Passo a explicar: vou ao padre da freguesia da minha residência e preencho o puto do papel, onde se pretendem saber coisas de importância brutal para o apadrinhamento de uma criança. São elas: tens de ser baptizada, ter feito a comunhão e o crisma, ter mais de dezasseis anos, não viver em pecado (ser amancebado ou ser APENAS casado civilmente) e ir à missa ao Domingo. A coisa não podia correr bem. Com pouca disposição para mentir ao velho caquéctico que veste a batina lá para os lados da Madalena (em qualquer outra área já estava reformado desde 1954, mas para ser padre, quanto mais putrefacto melhor), apesar da cadência do olhar para outro lado que não os olhos do interlocutor, lá fui eu, quem-não-deve-não-teme, com as informações solicitadas: baptismo, sim, comunhão, sim, crisma, não, eucaristia dominical, não. A minha certeza era uma: o crisma ia foder-me à grande. Não podia estar mais errada. Nem chegamos à questão do crisma, que era obrigatório (segundo as leis do direito canónico, que na Bíblia nada consta) eu ter um certificado de baptismo:

 - Pois, mas eu mudei de casa quatro vezes depois de ter sido baptizada...

 - Não tenho nada a ver com isso.

Assim, que nós os padres somos todos uns cabrões de uns gajos cheios de solidariedade para com toda a gente.

 - Mas não dá para ligar para a igreja desta freguesia e confirmar?

 - Não vou fazer isso.

Claro que não. Nós PREGAMOS a tolerância e a entreajuda, não a praticamos, deves ser burra, oh descrente.

Após uma desnecessária troca de argumentos com sua santidade a nódoa, desisto e ponho os pés a caminho. Com duas certezas: que não é a merda de um papel que faz de mim uma melhor ou pior madrinha, e que não é um padre arrogante, antipático e sem pingo de tolerância no sangue de barata que me vão impedir de ser aos olhos da sociedade aquilo que eu já sou desde antes do dia 1: a madrinha do meu afilhado.

 

Esta história continua, ah... se continua...



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