“Achas que estou gorda?”… “A minha mãe vem viver connosco.”… Não, não são estas as frases que, com especial prazer, as mulheres mais gostam de repetir. . São frases feitas que não geram no interlocutor minimamente esperto qualquer tipo de confusão nem, tampouco, dão azo a discussão. Basta dizer “Não!” à primeira e “Sim”, ou apenas assentir com a cabeça, quando de caras com a segunda. A frase preferida das mulheres é aquela ali de cima. Dita, não ouvida.
Não sou possuidora de nenhuma estatística mas, olhando à minha volta, sou gaja para arriscar que 90% das vezes que esta frase é proferida, sai da boca de uma mulher. As mulheres, é oficial, gostam de ter razão. É mais forte do que nós. No meio do caos, lá nos sai um feroz “Eu bem te avisei!”. Eu disse isto ao meu primo, a meio do comunicado do seu divórcio. E, é verdade, eu bem o avisei. Também disse isso a uma amiga quando ela foi apanhada a falar ao telemóvel enquanto conduzia. A minha mãe dizia isso depois de eu cair de bicicleta ou de me pegar com o meu irmão. Ela bem tinha avisado que eu me ia magoar.
Há um prazer subconsciente no “Eu bem te avisei!” que vai além do compreensível. É um golpe que se desfere na pior altura mas que, ainda assim, nos sai da boca sem apelo nem agravo. É um soco no estômago a meio de uma indigestão. É carregar no hematoma. É pôr álcool na ferida.
Um “Eu bem te avisei!” não vem numa altura boa da vida de quem a ouve. Ninguém diz “Eu bem te avisei que ias ganhar o Euromilhões, se jogasses esta semana!” ou “Eu bem te avisei que ias ser promovido, se continuasses a trabalhar dessa maneira!”. Não pensem vocês, seres do sexo masculino, que escrevo sobre isto porque a coisa nos custa dizer. Sim, é um reflexo, mas dá-nos um prazer apenas comparável ao de encontrar um par de sapatos do nosso tamanho a metade do preço. A verdade é que a frase não é dita ao acaso. Ela tem um suporte “histórico”. Por muito mal que vocês estejam, a capacidade que tivemos, lá atrás na vida, de prever a situação, coloca-nos ao nível de um super-herói. Às vezes as coisas são-nos tão evidentes que, na pior altura, temos de chamar a nós a razão que não nos foi dada antes. Para a minha mãe era óbvio que, se o meu irmão e eu andávamos a atirar coisas um ao outro, um de nós havia de se magoar. Isso fez-nos parar? Nem por isso. E ela, ainda doída pela falta de atenção, segundos apenas antes de se assumir mãe e correr de água oxigenada e algodão na mão para curar a ferida, tem tempo para um “Eu bem te avisei!”. Aquele é o nosso momento de glória. Contamos, para o sucesso dos nossos “Eu bem te avisei!”, com a vossa fraca memória, homens. Vocês também não se lembram, quando ganham o Euromilhões, de vir a correr na nossa direcção gritando: “Vês como eu tinha razão? Tu dizias que isto era deitar dinheiro pela janela, mas eu sabia que havia de ganhar!”, pois não?. E os outros primos e amigos, cujos casamentos eu achei que não iam dar certo? Ligam-me todos os anos, no dia do aniversário do casamento, apenas para me lembrar que, afinal, eu não tinha razão nenhuma? Claro que não!
O “Eu bem te avisei!” é apenas uma frase que nós dizemos. Muito. Não com a intenção consciente de magoar quem já está na mó de baixo, mas apenas para acreditarmos que, se nos ouvissem, conseguíamos evitar os males do mundo. Logo a seguir saímos a correr, com água oxigenada numa mão e algodão na outra, para vos curar as feridas. É importante que nos reservem o direito a esse momento de glória. Só assim nos galvanizamos para vos podermos dar a mão.
As mulheres têm sempre uma opinião sobre tudo. É inato. A probabilidade de estarmos certas é grande, já que opinamos tanto sobre tanta coisa. Além do mais, temos um disco duro extraordinário, que nos torna capazes de nos lembrarmos que bem vos avisamos na altura do Euro (não é esse, é o outro), há uma vida atrás, que da próxima vez que houver um Portugal X Grécia, o melhor é não verem. Mas vocês vão ver e, se ganharmos, não se lembrarão do nosso auspício. Se perdermos, já se sabe, nós bem avisámos…
O melhor, se querem um conselho, é ouvirem com atenção, acatarem sempre que conseguirem e, se der asneira, fazerem orelhas moucas ao “Eu bem te avisei!”. Tudo o que vocês não querem, quando confrontados com o resultado de uma má escolha, é fazerem outra e começar uma discussão que nunca conseguirão ganhar. Vão por mim, não refutem.
Depois não digam que não vos avisei!...
Era suposto este texto ter saído por aí em papel. Não saiu, não se perde. Sai por cá.


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