
Não consigo parar, os dedos não param de martelar as teclas. As minhas mãos ganharam vida própria, não obedecem ao meu cérebro, não respeitam as minha ideias.
Porque há ideias. Tantas. Imensas. Impossíveis de controlar.
Há mil ideias que rodopiam na minha cabeça, não me deixam pensar antes de fazer o que seja. Surgem, quero pôr tudo para fora. Mas as mãos antecipam-se, ganham o jogo, escrevem o que querem.
Têm urgência, ganham na vontade.
Não posso deixar para amanhã, pode ser tarde de mais.
Vai ser tarde de mais.
Não resisto à pressão, não resisto aos gritos que ouço incessantemente, que me mandam parar, desistir, ir dormir, parar.
Para já, por agora.
Depois calam-se, e só ouço o bater das teclas no computador, a obrigar-me a sentir, a dizer, a gritar, a não parar.
Não pares enquanto podes, não desistas.
Pára já, desiste!
Desde que tu morreste, que para mim foi agora, ainda não parei de pensar em ti. E agora ris-te de mim, dizes que me ganhaste, que estás bem. Que não tens fantasmas, que és tu o fantasma. Que me vais deixar.
Que eu nunca te vou deixar.
Que me esqueceste, porque até eu me esqueci de mim.
E que não vale a pena lutar. Não podes fazer nada, gargalhas tu, no meio de um fosco que não sei identificar.
Elas ganham sempre - e ri-se a apontar para as minhas mãos.
As minhas também me ganharam. Viras-me ao contrário, levas-me as entranhas dos meus pensamentos, ouves-me ao longe a mandar-te embora, a pedir para não ires.
Mando-te à merda, digo que te odeio. Choro e digo que tenho saudades tuas.
Não podes gostar de ninguém.Gosto de ti.
The fuck you love me, e começas a rir-te como uma louca.Desapareceste.
Estou esgotada, levaste-me as forças, a vontade.
Cansei-me de ti, cansei-me de mim. Cansei-me de tudo.
Só as minhas mãos não se cansaram, continuam a escrever.
Até quando?