Quinta-feira, 13 de Agosto de 2009
O meu ego tem o prazer de ter Possidónio Cachapa como amigo de Facebook. O meu alter ego, este que conhecem, não tem coragem.
E o meu ego tem o prazer de se deliciar com as fotos (menos do que com os escritos) da Farmville de Possidónio Cachapa. E, apesar de não perceber nada do que são essas vacas que de quando em vez aparecem perdidas pelo universo facebookiano, regozija-se pela constatação do óbvio: que os grandes são pessoas como nós. Também alinham em jogos do Facebook. Porque o verdadeiro talento não os impede de serem humanos. Apenas os impede de serem menos do que fantásticos.
Sábado, 8 de Novembro de 2008

Uma pessoa, que eu não vou creditar aqui porque não sei se lhe parece bem, sugeriu-me, e muito bem, o livro com o título que faz o título deste post. Ele avisou-me que não era um livro de auto-ajuda. E o que tenho encontrado por lá (para além de uma agradável surpresa) tem sido de uma coerência e utilidade que é difícil de acreditar.
Logo no início do livro tropecei numa constatação que me fez lembrar alguns comentadores* deste blog:
"O que faria o leitor agora se soubesse que iria morrer dentro de dez minutos? [...] É difícil dizer, mas, de todas as coisas que poderia fazer nos seus dez minutos finais, poucas seriam das que realmente fez hoje.
No entanto, algumas pessoas desaprovarão vivamente esse facto, apontarão o dedo na sua direcção e dir-lhe-ão claramente que deverá viver cada minuto da sua vida como se fosse o último, o que só demonstra que muitas pessoas passariam os seus últimos dez minutos dando conselhos estúpidos a outras. "
*Comentadores esses que, na sua maioria, vocês desconhecem. Porque eu carrego mais vezes do que aquelas que gostaria no link "Rejeitar comentário". Alguns deixo que apareçam. Just for the fun of it.
Terça-feira, 17 de Junho de 2008

Depois Carlos, outra vez sério, deu a sua teoria da vida, (...). Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. (...) Sobretudo não ter apetites. E, mais que tudo, não ter contrariedades.
Ega, em suma, concordava. Do que ele principalmente se convencera, nesses estreitos anos de vida, era da inutilidade do todo o esforço. Não valia a pena dar um passo para alcançar coisa alguma na terra - porque tudo se resolve, como já ensinara o sábio do Eclesiastes, em desilusão e poeira.
- Se me dissessem que ali em baixo estava uma fortuna como a dos Rotschilds ou a coroa imperial de Carlos V, à minha espera, para serem minhas se eu para lá corresse, eu não apressava o passo... Não! Não saia deste passinho lento, prudente, correcto, seguro, que é o único que se deve ter na vida.
- Nem eu! acudiu Carlos com uma convicção decisiva.
E ambos retardaram o passo, descendo para a rampa de Santos, como se aquele fosse em verdade o caminho da vida, onde eles, certos de só encontrar ao fim desilusão e poeira, não devessem jamais avançar senão com lentidão e desdém.
[...]
Eram seis e um quarto!
- Oh, diabo!... E eu que disse ao Vilaça e aos rapazes para estarem no Braganza pontualmente às seis! Não aparecer por aí uma tipóia!...
- Espera! exclamou Ega. Lá vem um «Americano», ainda o apanhamos.
- Ainda o apanhamos!
Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:
- Que raiva ter esquecido o paiosinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentamos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma...
Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
- Nem para o amor, nem para a gloria, nem para o dinheiro, nem para o poder...
A lanterna vermelha do «Americano», ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
- Ainda o apanhamos!
- Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou, e fugiu. Então, para apanhar o «Americano», os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.
Eça de Queiroz
"Os Maias"- Parte final
A minha melhor lição de vida
Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

Por causa de uma conversa que tive ontem com uma menina que gosta de ler este blogue.
E também por causa de uma conversa que tive hoje aqui com uma colega...
Fomos desencantar do fundo da gaveta um livro, cuja sinopse "canta" assim:
Há uma parte de cada uma de nós, uma parte bem importante, que muitas vezes não gostamos de reconhecer. É a cabra secreta. Não se atrevam sequer a fingir que não sabem de que é que eu estou a falar. A cabra secreta é a «tia fatal» que cada uma de nós sabe ser, a passear-se com um cigarro na mão e um martini na outra, e que é capaz de chamar os bois pelo nome. A cabra secreta diz o que pensa e pensa o que diz. É um ponto final definitivo no vício de sermos «boazinhas».
E pronto, a recomendação é simples: Descubra a Cabra Secreta que Há em Si. ASAP!
Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2008

Não é todas as noites que jantamos com o nosso
escritor preferido do momento. Mesmo que à distância de uma mesa. Até porque o restaurante tem apenas 5 dessas, por isso era quase a mesma mesa. Gritei duas vezes nos olhos dele: "Adoro ler-te!". E depois voltei a concentrar-me no que se passava na minha mesa, sem ter de fazer um esforço.
Noite 1 em Lisboa: Bairro Alto, José Luís Peixoto e algumas dores de costas.
Amanhã: dia que se prevê difícil... porque é que sou sempre eu quem tem de resolver as confusões que os outros arranjam?
Quinta-feira, 29 de Novembro de 2007

Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.
*
Amor. Amor. Amor, gostava de dizer esta palavra até gastá-la ainda mais.
Amor, gostava de dizer esta palavra até perder ainda mais o seu sentido.
Amor. Amor. Amor, até ser uma palavra que não significa nem sequer uma ilusão, uma mentira. Amor, amor, amor, nem sequer uma mentira, nem sequer um sentimento vago e incompreensível.
Amor amor amor, até ser nem sequer uma palavra banal, nem sequer a palavra mais vulgar, nem sequer uma palavra.
Amor amor amor, até ao momento em que alguém diz amor e ninguém vira a cabeça para ouvir, alguém diz amor e ninguém ouve, alguém diz amor e não disse nada.
Sozinho, diante da campa. O amor é a solidão.
Este homem é fantástico... e encontra-se
aqui
Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

... é chegar a casa, abrir o mail, e ter uma mensagem do meu amigo A., que encontrou, pelas suas andanças pela net, o blog de Possidónio Cachapa.
Do "
Prazer_Inculto", deixo aqui um post curto. Porque o resto? O resto é para saborear com calma...
"Ai as boas maneiras", tirado d
aqui.Olhando para baixo, vejo que às vezes sou um bocado malcriado nos posts. Num país em que nada se diz, tudo se sussurra e onde se deve sempre cumprimentar os que se desprezam, não é lá muito esperto. Quando era miúdo cheguei a levar uns safanões de outros putos por causa da mania da franqueza. Parece que não me serviram de nada. Assim, nunca mais chego a um bom tacho. Desculpa lá, mãe!
Terça-feira, 30 de Outubro de 2007

Mas ainda bem que há pessoas que escrevem coisas assim, para eu poder beber das suas palavras, de quando em vez:
...E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
- Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exactamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um menino inteiramente igual a cem mil outros meninos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo... Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo pronto nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me! ...
Antoine de Saint Exupery
Por cada minuto gasto a cativar-te, ganho sessenta segundos.
Sexta-feira, 31 de Agosto de 2007

E o que adianta?
Nada!
Eu digo que não gosto, não quero, não tenho saco, mas depois arranjam assim uns desafios para o engraçado e eu fico com vontade de responder. Desta vez chega
daqui e mete livros... Assim sendo, cá vai, a coisa é simples:
1. Peguem no livro mais próximo;
2. Abram-no na página 161;
3. Procurem a 5ª frase completa;
4. Coloquem a frase no blog;
5. Não escolham a melhor frase nem o melhor livro (usem o mais próximo);
6. Passem o desafio a cinco pessoas.
Ora a coisa correu mal, porque o livro mais próximo era (claro!) de Pedro Paixão, e chama-se "Os corações também se gastam". Tem, contudo 118 páginas... lá fui eu ao segundo mais próximo. Estava no topo do monte de livros na estante, por ter sido o último a ser lido. Chama-se "E se eu gostasse muito de morrer" e é de Rui Cardoso Martins. Aproveito para recomendar. E a 5ª frase completa da pág. 161 reza o seguinte:
"Uma mãe que falta de propósito ao funeral do filho, prefere ir tomar a bica, um café espesso como o último sangue que ele vomitou, esta é das boas, e até hoje ninguém sabe porquê, nem falo mais no assunto."
E pronto. Mais uma vez quebro a corrente por aqui. Se alguém quiser levar este desafio avante, não hesitem.
Quinta-feira, 19 de Julho de 2007

"És tão linda que nem dás vontade de foder, dizia. Eu não consigo. Dizia outras coisas, grande parte perde-se no ar, mas algumas, poucas, raras, ficam guardadas e voltam de vez em quando, nas alturas mais despropositadas, atrapalhando o que se está a fazer. És tão linda que nem te consigo foder. Eu, pelo menos, não consigo. A beleza não seduz, assusta quase, leva-nos para um sítio que não sabemos onde fica, sabemos só que não é aqui. Era assim que ele tentava explicar, como quem precisa de uma desculpa, o que lhe estava a acontecer, sabendo de antemão que não ia conseguir. Se há coisa que não se sabe explicar é por que se gosta do que quer que seja - um perfume, uma flor, um beijo - e o que seja isso de gostar que traz duas coisas tão próximas que as põe misturadas numa só e as outras tão distantes que se apagam facilmente. (...)"
Pedro Paixão
No dia que salvei um plágio eminente ( e inconsciente ), a mistura de muitos mundos, o exorcismo de vários fantasmas.
Para me infernizar os dias e aterrorizar as noites, já me chegam os que sobram.
Domingo, 15 de Julho de 2007
Na confusão do mundo, um rapaz sobe a rua. O Interior é igual em toda a parte. Mas hoje vai mudar. Ele traz um segredo terrível no bolso do kispo. Faz calor na província dos suicidas. Dá vontade de rir: uma cidade em que até o coveiro se mata... São estatísticas, tudo em números. Na Internet, há sexo e doidos japoneses e americanos para conversar em directo. No campo, granadas e ervas venenosas. No prédio, um jovem assassino toca órgão. O space-shuttle leva cortiça do Alentejo para o Espaço. O Bispo viu o maior massacre da guerra de África e calou-se. Mas hoje vai responder. Os factos verdadeiros são os piores. O amor do rapaz rebentou. Que responsabilidades temos quando nada fizemos? Em que fado parámos, onde fica Portugal?

"Todas as feridas serão material de poemas. Portanto não devem ser evitadas. De preferência mantê-las abertas, até por fim sararem. De outro modo não deixarão outra cicatriz que não seja umas linhas, uma página, no máximo. (...)"
Pedro Paixão
Quarta-feira, 20 de Junho de 2007
Fico com saudades deste menino. Fica aqui, em francês, comme il faut.
Mais les yeux sont aveugles. Il faut chercher avec le cœur.
Ce qui embellit le désert, dit le petit prince, c'est qu'il cache un puits quelque part...
Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé.
Voici mon secret. Il est très simple: on ne voit bien qu'avec le cœur. L'essentiel est invisible pour les yeux.
J'aurais dû ne pas l'écouter, me confia-t-il un jour, il ne faut jamais écouter les fleurs. Il faut les regarder et les respirer.
Les grandes personnes ne comprennent jamais rien toutes seules, et c'est fatigant, pour les enfants, de toujours leur donner des explications.
Sábado, 9 de Junho de 2007
Foram aqueles minutos que passei de ventoinha virada para o peito há meia hora atrás.
Maldito escaldão! Deve ter sido num dia assim que o Possidónio Cachapa arranjou o título para este livro. Brilhante, como todos os seus.
Sábado, 28 de Abril de 2007

É o nome do livro que acabei agora de ler.
Convém ir começando a aprender uma coisas.
Bad, sempre à frente, até do SEU tempo!
Quinta-feira, 21 de Dezembro de 2006

"Dessine-moi un mouton!"
Quinta-feira, 30 de Novembro de 2006

" - Supõe que encontras um louco na rua que te diz que é um peixe que todos somos peixes. Vais discutir com ele? Vais-te despir à frente dele para lhe mostrares que não tens barbatanas? Vais-lhe dizer na cara o que pensas?
O irmão calava-se e Edouard continuou:
- Se só lhe dissesses a verdade, aquilo que realmente pensas dele, isso quereria dizer que o levavas a sério. E levar a sério algo de tão pouco sério é perdermos nós próprios a nossa seriedade. Eu devo mentir para não levar loucos a sério e não me tornar, eu próprio, louco...".
In O Livro dos Amores Risiveis
Milan Kundera
Segunda-feira, 27 de Novembro de 2006

"Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir sozinho para casa. Isto é a glória literária à portuguesa.”
Quarta-feira, 1 de Novembro de 2006

Soneto da Fidelidade
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vive-lo em cada vao momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angustia de quem vive
Quem sabe a solidao, fim de quem ama
Eu possa dizer do meu amor (que tive):
Que nao seja imortal, posto que e chama
Mas que seja infinito enquanto dure
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das maos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a ultima chama
E da paixao fez-se o pressentimento
E do momento imovel fez-se o drama.
De repente, nao mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo proximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, nao mais que de repente
Quando as palavras do génio são suficientes, remeto-me ao silêncio.
Quinta-feira, 7 de Setembro de 2006

A genialidade, ao invés de aclamada, é muitas vezes confundida com loucura. Só quem já experimentou a fragilidade da vida, a inconstância do ser, o esfumar dos sonhos, pode mergulhar nos seus medos e nos seus pesadelos e ver o Mundo melhor que os outros. Rir-se por fora de quem lhes chama louco, enquanto uma voz interior os corrói com a precariedade do tempo, e os vai matando, aos poucos. Mais que um dos meus autores de eleição, Kafka é uma das minhas fontes preferidas de energia. Transformar a dor em belo não é para todos. Algumas citações:
"De um certo ponto adiante não há mais retorno.Esse é o ponto que deve ser alcançado".
"Quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece".
"O tempo é teu capital; tens de o saber utilizar. Perder tempo é estragar a vida".
"Existe uma meta, mas não há caminho; o que chamamos caminho não passa de hesitação".
"Entre muitas outras coisas, tu eras para mim uma janela através da qual podia ver as ruas. Sozinho não o podia fazer".
"Só podia encontrar a felicidade se conseguisse subverter o mundo para o fazer entrar no verdadeiro, no puro, no imutável".
"Toda a educação assenta nestes dois princípios: primeiro repelir o assalto fogoso das crianças ignorantes à verdade e depois iniciar as crianças humilhadas na mentira, de modo insensível e progressivo".
"Não tenho nenhuma das qualidades necessárias para vencer na vida".
"E, como levava uma existência divina, Deus o tomou para Si; ninguém o viu mais".
"Todos os erros humanos são impaciência, uma interrupção prematura de um trabalho metódico."
"Talvez haja apenas um pecado capital: a impaciência. Devido à impaciência, fomos expulsos do Paraíso; devido à impaciência, não podemos voltar."
"Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós."
"Desde que alberguemos uma única vez o mal, este não volta a dar-se ao trabalho de pedir que lhe concedamos a nossa confiança."
"Crer-se no progresso não significa que já tenha tido lugar qualquer progresso."
É como se alguém tivesse de subir cinco degraus de escada e uma segunda pessoa apenas um degrau, mas que, pelo menos para ela, é tão alto quanto aqueles cinco degraus juntos; O primeiro vai vencer não só os cinco degraus, mas também centenas e milhares de outros, terá levado uma vida ampla e muito fatigante, porém nenhum dos degraus que subiu terá sido para ele tão importante como, para o segundo, aquele degrau único, que não só pode subir, como passar por cima.
- Fonte: "Carta ao pai".
Segunda-feira, 21 de Agosto de 2006

Os livros de Pedro Paixão não têm descrição.
Entram-nos olhos dentro, rasgam-nos a alma, deixam-nos sós com os nossos medos, o nosso passado, as nossas vivências, amores e desamores.
Se existe um génio, uma pessoa que consegue pôr em palavras tudo aquilo que é, somos, são, essa pessoa é Pedro Paixão. E os títulos? Pequenos extases de pura genialidade...
É o meu autor preferido, devoro os seus livros como se isto fosse preciso para eu continuar a respirar. É o único autor de quem eu digo 'tenho todos os livros, e comprarei os seguintes'. As minhas palavras não são nada, comparadas com a qualidade das dele, por isso vou deixá-lo falar...
A partir de agora, tudo são citações.
"Queres saber quem sou? Eu sou o que te olha e espia para te recolher e depois guardar num lugar que é só meu. Para isso serve o papel. O resto não precisas saber. Nem convém. Só te ia distrair, podes crer. Eu sou o que mergulha as mãos na tua vida para sentir a minha a voltar." (Muito, Meu Amor)
"Eu não sou bom em nada. Eu só sou bom a escrever. Estou cada vez pior naquilo que sou e estou cada vez melhor a escrever. O que eu gostava mesmo era de ter uma vida melhor, uma vida mais decente, e nessa vida eu não escreveria. "
"Costumava forçar-se a chorar antes de chegar a casa, depois de estar com seu amante. Olhava-se no espelho do elevador e dizia a si própria baixinho que o tempo lhe havia de roubar toda a beleza." (A Noiva Judia)
"Há muitas maneiras de morrer, há muitas coisas para matar. O que se tem de matar primeiro é o que está mais próximo de nós. O que temos a obrigação de matar primeiro é o nosso amor. Depois já não é preciso, depois basta acabar."(Boa Noite)
"A minha vida nada tem a ver com o que escrevo." (47 W 17)
"E depois uma rapariga precisa de algumas coisas, poucas, só que cada uma dessas coisas, por sua vez, precisa de outras coisas e depois já são tantas que para fazer uma mala são precisas duas horas e um quarto." (Nos teus braços morreríamos)
"Nunca se sabe o que é para sempre, sobretudo nas coisas do amor. E era uma coisa do amor, isto tudo. São tão estranhas as coisas do amor que não se compreendem por inteiro. Tem de se estar sempre a fazer suposições. Nunca se sabe como e até que ponto a até quando. Esta obsessão chega para impedir a vida, o amor pode impedir o amor, amaldiçoá-lo como um espectro." (Nos teus braços morreríamos)
"Escrever pode ser uma óptima desculpa para quem na vida não tem qualquer esperança. É uma maneira de preencher uma sombra e há momentos em que um beijo escrito vale por muitos." (Nos teus braços morreríamos)
"Há dia, sabes, em que gostava de ser como o gato e que me tocasses sem desejar encontrar quaisquer sentimentos a não ser o que se exprime num espreguiçar muito lento - um vago agradecimento? - e que depois me deixasses deitado no sofá sem que nada pudesses levar da minha alma, pois nem saberias o que dela roubar." (Assinar a pele, conto)
"Quem não está confuso corre o risco de estar enganado, pior, de se estar a enganar." (Saudades de Nova York)
"Aquilo a que assisto é real e não é possível." (PortoKioto)

Segunda-feira, 14 de Agosto de 2006
É d'ouro o primeiro verde da natureza
O matiz mais dificil de conservar
A primeira folha é como uma flor
Que pouco mais que uma hora vai durar
Depois, a folha dá lugar à folha
Assim se malogrou o Paraíso
Assim se vai da madrugada ao dia
Nada que é de ouro pode durar
Original:
Nothing Gold Can Stay Nature’s first green is gold, Her hardest hue to hold. Her early leaf’s a flower; But only so an hour. Then leaf subsides to leaf. So Eden sank to grief, So dawn goes down to day. Nothing gold can stay.
Segunda-feira, 31 de Julho de 2006

O nosso amor morreu...
Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!
Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...
Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos pra partir.
E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossível que há-de vir!
Florbela Espanca
Sábado, 15 de Julho de 2006
Passaram tantos por mim. Porque não ficou nenhum? Para que houvesse um teria que haver todos os outros? Para que esse passasse teriam que passar todos? Teve mesmo que ser assim?Saio sozinha, encontro alguns amigos nos locais do costume, e volto sozinha. Dói-me muito ver a cama vazia. Parece-me injusto. Cada vez é mais difícil. Vejo as coisas do quarto: a cama branca, as duas cadeiras, as cortinas caídas. Fazem-me sentir como se eu estivesse ali a mais, como se fosse uma intrusa.
Às vezes dormem comigo. Mas é só uma infidelidade que cometem para provarem a si próprios que ainda estão muito agarrados às namoradas. Quando pedem desculpa ainda são mais miseráveis. Fico com os nomes de todas na memória.
Rogo por amor e ninguém me ouve. Mais valia não haver palavras, só suspiros e risos e choros. Talvez alguém ouvisse. Talvez alguém entendesse.Dou comigo a rezar diante de uma parede de pedra e tenho por única resposta o eco da minha voz.
Estou cada vez mais sozinha.Ninguém me agarra e diz: “Quero-te como não é possível querer mais alguém. Leva-me contigo. Ou então eu levo-te comigo.”
Não. Tocam-me mas ninguém me agarra. Querem só tocar. Batem nos vidros, riem-se e eu rio-me. E depois partem.
Estou muito cansada. O meu coração está muito pesado.
Passaram tantos por mim. Porque não ficou nenhum? Teria que ser assim, mesmo assim?
Pedro Paixão -
http://aguaporpaixao.blogspot.com/1989
(Minha) Data adulterada
Segunda-feira, 12 de Junho de 2006

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
(José Régio)
Já lá vão mais de 40 horas... vou passar a olhar para o calendário, deixar o relógio para trás.

“Tenho o riso tão roto, tenho andado tão por baixo, que já não chego com as mãos à cabeça, já nem o riso consigo remendar. As lágrimas lavam-me a cara quando me deito e me levanto. Rasgam-me os lábios até às orelhas, cada vez que tento falar, para dizer aos outros que estou bem. Hoje vi-me ao espelho. Parecia um palhaço assassinado com uma faca. Até a vontade de me rir eu perdi.”

Porque qualquer dia é bom para homenagear Miguel Esteves Cardoso, e qualquer dia é bom para homenagear o amor! - É longo, mas vale a pena.
"Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
Sexta-feira, 9 de Junho de 2006

Hoje é o dia Nietzsche (para mim - afinal, o blog é meu, os dias são de quem eu quiser...).
Cá vão algumas citações:
“Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal”
“Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar”
“As mulheres podem tornar-se facilmente amigas de um homem; mas, para manter essa amizade, torna-se indispensável o concurso de uma pequena antipatia física”
“Sou demasiado orgulhoso para acreditar que um homem me ame: seria supor que ele sabe quem sou eu. Também não acredito que possa amar alguém: pressuporia que eu achasse um homem da minha condição”
“O que é o macaco para o homem? Uma risada ou uma dolorosa vergonha”
“As próprias mulheres, no fundo de toda a sua vaidade pessoal, têm sempre um desprezo impessoal - pela mulher”
“Nós fazemos acordados o que fazemos nos sonhos: primeiro inventamos e imaginamos o homem com quem convivemos - para nos esquecermos dele em seguida”