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Que meia dúzia de horas depois de fazer um post sobre a propensão do universo para equilibrar as coisas, se tenha partido o salto de uma das minhas botas.
Lá está: não se pode dar muita confiança que abusa logo.
Caro universo: já ias para o c@r@lhinho, não?
Não há tempo para nada, estamos todos cheios de pressa: não há tempo para ler, nem telefonar a um amigo a perguntar só se está tudo bem. Como não há tempo, as pessoas por vezes ligam-se e dizem: “Olha, só te liguei para te pedir um favor” e depois de o fazerem, invariavelmente desligam prometendo que para a semana iremos almoçar. E até iríamos se houvesse tempo, mas não há. E assim não vamos almoçar. As pessoas só têm tempo quando estão presas no trânsito ou numa situação em que são obrigadas a ter tempo, tipo presas no trânsito. Ou então à espera do autocarro. Ou à espera da sua vez na consulta. Ou à espera de ser atendido na fila longa. As pessoas têm tempo quando estão à espera. É um tempo forçado, como se fosse uma prisão domiciliária, uma liberdade condicional, mas é tempo. Se não houvesse filas de trânsito ou do talho, ninguém teria sequer este tempo, que não é bem aquele tempo no seu estado mais puro, como o tango de Gardel.
Às vezes ligam-me pessoas que parecem ter tempo para mim e interromperam o seu dia para me perguntar como é que estou: “Que é feito de ti que nunca mais disseste nada?”; que me têm visto aqui e ali, que estou em grande. Perguntam-me se eu tenho falado com aquele amigo que ambos temos em comum — “Ainda andas com aquela?” — se estou mesmo bem, se sempre me mudo, se é verdade o que lhes haviam dito, até que de repente, abrupta mente me dizem:
“Olha! Chegou a minha vez, estão a chamar o meu nome nas colunas!”; que têm de entrar, mas que ligam
mais tarde. As pessoas que dizem que ligam mais tarde nunca ligam mais tarde. As pessoas que dizem que
ligam mais tarde quando ouvem o seu nome nas colunas são iguais às que dizem que para a semana iremos almoçar. Não vêm almoçar. Não vão ligar mais tarde. Não vão mais nada.
As pessoas sem tempo não o procuram porque se habituaram a não o ter. E quando alguém se lhes abeira e anuncia que tem tempo para lhes dar, assustam-se com essa perspectiva e dizem logo que não têm tempo para isso: “Ai que tenho isto para fazer, ai que não posso, ai que não me dá jeito, ai que não consigo, ai que é impossível!”. As pessoas sem tempo não querem tê-lo e por isso o matam. Há pessoas que passam a vida a matar o tempo e deviam ser presas por isso como um qualquer homicida. Porque aí, voltaríamos a ter tempo, como se estivéssemos numa fila de trânsito, à espera que a coisa ande.
Fernando Alvim in jornal Metro, 18-12-2008
Belíssimo.
Sou um ser apartidário, não sou um ser apolítico.
Vivo a trezentos quilómetros de distância e, na prática interessa-me pouco quem vai ou quem deixa de ir “trabalhar” para os Paços do Concelho da capital.
Mas a localização do evento não evita a paródia nacional.
Pedro Santana Lopes volta a candidatar-se à Câmara de Lisboa.
Pedro Santana Lopes é o nosso Stallone.
Quando já se acreditava que Rocky Balboa estava morto, lá ressurge o dito, pronto para ir à luta. E há gargalhadas. E há escárnio e maldizer. E há comentários à boca pequena (e à grande). E abanares de cabeça e encolheres de ombros. Há isso tudo. Mas também irá haver uma horda de admiradores, de curiosos ou de simples desavisados que irão pagar para ver o filme...
Tendo voltado à minha cabeça a ideia peregrina de parar com o uso de palavrões, decidi trocar subtilmente a expressão "Foi com o c@r@lhinho" por uma igualmente intensa. Saiu-me um "Foi com os porcos" que, ao contrário da anterior, à qual o mundo que me rodeia já se tinha vindo a habituar, chocou os presentes.
Esta gente nunca está satisfeita com nada...
Lá tive eu de explicar aos católicos de meia tigela que estavam presentes que "Ir com os porcos" tem uma base bíblica.
Mateus 8:31 E os demónios rogavam-Lhe, dizendo: Se nos expulsas, manda- nos entrar naquela manada de porcos.
Mateus 8:32 Disse-lhes Jesus: Ide. Então saíram, e entraram nos porcos; e eis que toda a manada se precipitou pelo despenhadeiro no mar, perecendo nas águas.
Eles acreditaram? Não me parece. Acharam que eu inventei tudo. Que o Senhor tenha mandado a maldade com os porcos, ainda vá. Agora a Bad saber coisas da Bíblia? Nã...
Em suma, Deus manda os porcos para o abismo, e eu tenho de continuar a dizer que as pessoas foram com o c@r@lhinho. É que antes de criticarem já se informavam, não?
Esta blogger é uma caixinha de surpresas, não é?
Ao contrário da maior parte das pessoas, não vou pôr-me com falsas modéstias: sou gira, sou inteligente, sou interessante. Mas também sou Má... como todas as mulheres, não é? Como perceberão com as leituras, e como este é um reflexo de mim, naturalmente tenho um blog bipolar!