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O contexto:
Há coisa de um mês e pouco um amigo que trabalha na Men's Health sugeriu-me, a título óbvio de reinação, que me candidatasse ao lugar de "Girl next door" na revista. A tarefa consistia em responder aos pedidos de ajuda dos leitores: dúvidas existenciais, crises relacionais, mentiras ocasionais, enfim... A "Girl next door" havia de ser menina para responder a tudo... comedida e moderadamente. E foi aqui que a porca torceu o rabo. Pezinhos de lã é coisa que eu não tenho. E, cá entre nós, pro bono trabalham os U2. Adiante... Ficou a promessa de uma desconstrução da rubrica quando ela saísse. E eu cá não sou girl de virar costas a um desafio. Portanto, se forem à Men's Health deste mês poderão encontrar estas mesmas perguntas, mas com respostas de jeito.
Primeira pergunta, para começar com chave de ouro:
"Traí a minha parceira, mas quero continuar com ela, pois foi apenas uma one night stand. Devo confessar-lhe a minha infidelidade?"
David, David, David... não, claro que não. Agora que estamos no Natal é tão simpático que a presenteies com um HPV acabadinho de contrair. Usaste preservativo, David? I've got news for you: pouco importa. Vá, não deixes de fazer uma cara surpreendida (a mesma que fizeste quando ela te disse que se cansou de te ligar na noite em que lhe enfeitaste a testa com um belíssimo par de chifres) quando ela regressar do ginecologista com um teste positivo. Foi apenas um one night stand... que bom! Se optares por contar-lhe, não te esqueças de referir isso. É sempre muito importante alguém saber que foi corneado por causa de um tesão temporário, uma coisa passageira. Quiçá podes usar o álcool como explicação. Se há coisa reconfortante neste mundo é saber que o(a) nosso(a) namorado(a) fod£u uma desconhecida. "Era a do 6º Esquerdo?" - "Não, era uma gaja que eu só vi uma vez na vida!" - "Ai, querido, estou tão aliviada!...". David, se isto fosse o "Ídolos" e eu o Moura dos Santos, havia de te mandar encher de moscas.
Pergunta número dois:
"Queria comprar uma prenda sexy para oferecer à minha parceira mas ela sente-se insegura quanto ao corpo. O que devo fazer?"
Alto e pára o baile! Dois leitores, duas perguntas, duas "parceiras"? Mas isto é um jogo de póquer ou é a vida real?
Bem, Alexandre, eis o que tenho para te dizer: se dissesses à tua "parceira" que ela é fantástica e perfeita e essas coisas todas que tu, provavelmente, tens vergonha de dizer, talvez ela não se sentisse insegura quanto ao corpo. Mas não. Queres oferecer a uma pessoa que tem insegurança quanto ao corpo uma prenda sexy. É que nem sequer é uma coisa egoísta. Nã... tudo a pensar NELA, claro. Olha, queridinho, queres dar-lhe uma prenda? Faz-te homem. Ela vai adorar.
Pergunta número três (esta sem "parceira"):
"Se uma mulher deixa de me telefonar para passar a enviar somente sms, significa que está a ficar menos interessada?"
Não, Rogério. Significa que tem um daqueles tarifários que oferecem 1000 sms por mês, o que significa que ainda é uma adolescente e significa também que as sms que sobram estão a ser investidas em outras pessoas. Também pode significar que ela tem pouca paciência para te ouvir o que, considerando a tua pergunta de "gaja", não me surpreende nem um pouco. Homens são homens, mulheres são mulheres. As mulheres é que têm dúvidas sobre essas merdas das sms e das chamadas, se o correspondente se despede com "Bjx" ou "Jokas" ou "Beijos". Ou, vá, numa tentativa de explicação completamente elaborada e muito out of the box: talvez as sms sejam "dicas" para que sejas tu a ligar. As mulheres cansam-se de tomar a iniciativa, sabes? Pára lá de tentar ver o motivo oculto por trás de cada gesto e faz-te à vida. Os polegares dela não estarão eternamente ao teu serviço, amigo.
E pronto. Agora que toda a redacção da Men's Health está a louvar a sua escolha, posso repousar (por um mês?) e dedicar-me ao que melhor sei fazer com este blogue que é... isso.
Aqui há uns tempos, e por causa deste post, recebi um e-mail de uma leitora, que me alertava para o facto de a palavra "deficientes", no título, poder ferir algumas susceptibilidades e poder ser mal interpretada por quem lê. Devo confessar aqui, como fiz em privado à leitora, que havia pensado duas vezes, antes de escrever a palavra "deficientes". Mas foi uma coisa que me ocupou o pensamento durante pouco tempo. Porque não acho que sejam as palavras a marginalizar ou a maltratar as pessoas. Somos nós. É a forma como são proferidas essas palavras e o contexto no qual são utilizadas que magoam as pessoas. Sempre fui habituada a não pegar nas palavras "com pinças". Tenho um tio deficiente mental profundo. Durante toda a minha vida, a palavra "deficiente" foi utilizada com naturalidade. A palavra "coitadinho" é que me deixa p... da vida. E sempre achei que quem o trata por cidadão "portador de deficiência" está a cumprir uma norma. Para mim o cancro é cancro. Não é uma doença prolongada. E um preto é preto, não é uma pessoa de cor. Cor temos nós todos. Acredito piamente que o politicamente correcto das palavras não foi imposto à sociedade para salvaguardar e proteger as sensibilidades de quem as ouve, mas sim para limpar a consciência de quem as diz. Porque não é o facto de usarmos algumas palavras que faz de nós menos respeitadores das outras pessoas. É o facto de as palavras nos meterem medo, nos causarem repulsa, nos incomodarem. Se eu tenho que pensar duas vezes antes de falar de uma ou outra pessoa, não estou a ser honesta. Nem comigo nem com essa pessoa. Eu tenho um tio deficiente, tenho um amigo preto e a minha mãe tem cancro. Sempre disse isso, sempre fui habituada a tratar as coisas pelos nomes mais crus. Nunca disse que tenho um tio portador de deficiência, que tenho um amigo de cor e que a minha mãe era vítima de doença crónica, ou tinha um "mal". A sensação que me dá, ao ouvir estas palavras tão cheias de cuidado e tão pensadas e repensadas, é a de que a sociedade inventou o "socialmente correcto" para poder dormir em paz. Eu não sei se será bem assim, mas acho que, se a sociedade precisa de encontrar um termo para te definir e esse termo não é a primeira coisa que te vem à cabeça, então há algo que a sociedade precisa de corrigir. Eu tenho o maior respeito por todo e qualquer ser vivo e pelas suas dificuldades. Acho que as pessoas devem ser tratadas de forma diferente quando têm dificuldades. Por forma diferente entenda-se com civismo, solidariedade e respeito. Respeito esse que, aos meus olhos, está pouco relacionado com a escolha das palavras e muito relacionado com as nossas atitudes. E isso, sim, tem que mudar. Se eu achasse que a atitude da sociedade mudava por eu trocar a palavra "deficientes" pelo termo "pessoas portadoras de deficiência", já estava trocado. Mas não. Lamentavelmente, não.
Ao contrário da maior parte das pessoas, não vou pôr-me com falsas modéstias: sou gira, sou inteligente, sou interessante. Mas também sou Má... como todas as mulheres, não é? Como perceberão com as leituras, e como este é um reflexo de mim, naturalmente tenho um blog bipolar!