Aqui há uns tempos contaram-me que a Ryanair recebeu uma carta de reclamação de um passageiro com variadas razões que determinavam aquele como um passageiro extremamente insatisfeito. Ao que me lembro era a higiene, a pontualidade, a falta de apoio (não me lembro se no ar, se em terra, ou ambos) e mais uma série de coisas. À extensa carta de reclamação o Departamento responsável por gerir estas coisas dentro da companhia lowcost deu uma resposta curta: “Devia ter voado na British Airways!”.
Este foi um episódio contado em forma de relato por um dos maiores cérebros de Gestão Aeroportuária que trabalha no nosso País, pelo que não me permito duvidar. Aliás, uma breve busca na internet com as palavras “Ryanair + complaint” dá para ter uma ideia.
Ora e o que é a vida, senão uma viagem?
O que nos faz pensar que temos o direito a serviços dignos de uma “Fly Emirates”? Pagamos o bilhete que nos permite fazer check-in numa companhia aerea de topo? Fizemos alguma coisa para merecer um inesperado upgrade? E quem tem medo de voar? Fica limitado a fazer apenas pequenas jornadas?
Não deixa de ser curioso o facto de eu tentar fazer esta analogia, apesar de apreciar pouco o período que passo dentro de um avião. Na maior parte dos casos, durmo. Não como, não falo com os(as) comissários(as), não faço compras a bordo, nem me apercebo do que se passa à minha volta. Mas, sempre que posso escolher (o que significa, na maior parte das vezes, que o Burgo paga as minhas viagens), fujo apressadamente de toda e qualquer lowcost. Não confio. Não me parece bem. E nas companhias de bandeira? Corre-me sempre tudo bem? Não. Já me perderam mais vezes as bagagens do que aquelas que consigo enumerar, já me alterquei com uma comissária de bordo, e até já exasperei com os gritos das criancinhas dentro dos "meus" aviões. Então, o que me dá esta impressão? Eu não consigo escolher quem vai viajar comigo. Eu não controlo as coisas que acontecem em volta. Na maior parte das vezes pouco me importam essas pessoas e essas coisas. Estou a dormir. O destino é o mesmo, e lá chegarão todos os voos. Lowcost ou não. Às pessoas que continuam a preferir companhias de bandeira, perguntou-se o que as levava a pagar mais por aquele que é, no fundo, um produto final igual. A resposta? Simples: confiança. Por muitas vezes que essa confiança seja traída, por muitas vezes que o resultado final fique aquém das nossas expectativas. Continua-se a preferir a percepção de serviço, de segurança, de conforto, do que a possibilidade dos mesmos. Da mesma forma que, apesar de o destino final ser o mesmo, não me chega saber que lá vou chegar. Importa-me (e muito) saber como.
Relendo o texto não tenho a certeza de que esta seja uma analogia perfeitamente conseguida. Mas faz sentido na minha cabeça. E, por ora, basta-me.
** No Burgo não dá jeito pôr imagens nos posts. So sorry.**