por Bad Girl, em 20.10.12
Primeiro foi a Adriana Xavier que abraçou um polícia. O país delirou com o gesto da rapariga, alegadamente de intenções puras, que se limitou a sentir a tristeza nos olhos do polícia e o abraçou. Por casualidade, Ah, Ah, Ah, fê-lo em jeito de pose. E o país viu metáforas, agarrou-se à simbologia do acto. A Bela que abraçou o Monstro, sendo a Bela a jovem sem futuro num país em crise e o Monstro uma das engrenagens na máquina do poder. Nos entretantos, buscavam incessantemente Diana, comprando uma história da Cinderela que tinha tanto de mal contada como de infantil. Sentiram-se enganados pela Cacharel, que articulou assumidamente esta campanha, mas ilibaram a Adriana, que teve direito aos seus 15 minutos de fama, coisa tão compreensível aos olhos de um povo que passa os dias a adular protoganistas de reality shows. E foi assim que continuamos, sem rumo e sem heróis, que cuspimos com a mesma rapidez com que devoramos, até Maria Archer mostrar as mamas numa manifestação. Se me perguntarem a mim, que só soube disto ontem (quando estou fora não vejo nada que diga respeito a notícias de Portugal, é uma forma de manter a sanidade), não leio nada neste gesto. No calor do momento, ela tirou a camisola e ficou com as mamas à mostra. Num gesto tão inocente e tão espontâneo como o da Adriana. Ou o do Ricardo, que procurava a Diana. As interpretações fazem-nas as pessoas, ávidas de referências, de símbolos, de heróis. Nem que estes heróis sejam pessoas que sabem, ainda que subconscientemente, que a fila de frente de uma manifestação é a possibilidade de uma vida para brilharem num país que vive na bruma. Somos gente que espera o milagre que sabemos que não vai acontecer. Já o fazemos desde os tempos de D. Sebastião. Alimentar o sonho de um milagre permite-nos adiar as atitudes. Já vi purgas piores.