
O dia era perfeito: tinha ultrapassado o limite de velocidade em variadíssimos troços das autoestradas portuguesas, tinha novamente conseguído vestir aquelas calças de ganga
Homeless que já não passavam nas ancas desde 2001 (são um 34 extremamente apertado), estava bem disposta. O único senão era estar cansada. Uma das poucas situações em que uso os meus óculos (as outras são: ao computador, a ler, a ver TV e a conduzir à noite). Mas tantas eram as saudades do JB e tamanha a insistência, que acedi a um jantar.
Chegamos ao restaurante, onde ele foi cumprimentado pelo dono, que tratou pelo nome. Disse que o ** (outro JB) também lá ia mais tarde, com uns outros quantos e respectivas esponjas (não, não é uma gralha, apeteceu-me...) e se queria a mesma mesa. Um aceno negativo com a cabeça bastou para ele perceber que a mesa era só para dois. Os outros chegaram cerca de meia hora mais tarde, já tínhamos os Bifes Pimenta à nossa frente. Dois deles eram cromos repetidos do primeiro jantar, agora com companhia feminina a controlar-lhes a testosterona, os outros não. Eram 6, cada um com a sua respectiva. Nada tendo contra a espécie em si, vou descrever-vos as ditas moças: loiras, altas, muito bronzeadas, argolas gigantescas, tops que pouco deixavam à imaginação, calças de ganga cheias de flores (duas delas traziam corsários, um deles com flores e outra um branco estranhamente simples), cintos largos brilhantes e sandálias que variavam entre o branco, o dourado, o preto e o prateado. Olharam-me de lado. Aquilo não trazia nada de bom para o meu lado.
Sem eu saber como (ah, ah, esta coisa dos telemóveis...) a ex do JB chegou ao Restaurante já nós estávamos no café. Quando ela entrou eu percebi o "engasgamento" dele. Nunca tinha visto ninguém mudar literalmente de cor de um momento para o outro. Os saltos batiam no soalho do restaurante e aproximavam-se. Ele tentava disfarçar um olhar preocupado com um sorriso quase forçado. Os saltos pararam. Eu, que até achava que sabia onde é que aquilo ia parar, pousei a chávena. Sem desviar o olhar, senti alguém ao pé da mesa:
- Com que então agora deu-te para andar metido com caixas de óculos?
Acho que ela se estava a referir a mim. Mas como vozes de burra não chegam ao céu, fiz aquilo que melhor sei fazer: ignorei.
Nisto o JB fez-se homem
(já não era sem tempo!!!), e disse-lhe:
- S., vai-te embora! - num tom relativamente ríspido e com um olhar irado.
Não posso! Outra S.? Ainda mais com o resto das letras exactamente iguais aos desta S.?
Achei que já podia olhar. Não levantei a cabeça, pelo que só vi a mão esquerda da moça (a do meu lado) colada à cintura e a mão direita ocupada com um telemóvel, parte do peito exageradamente proeminente (para os homens: saltem esta parte. Peitos, exageradamente e proeminentes são palavras que vocês têm dificuldade em articular na mesma frase, e nesta ordem), a cintura e parte da anca. Devo admitir, a gaja é boa. Mais o tipo boazona que boa. Quanto ao pedido/ ordem/ sugestão dele, não me parecia. Ela não ia embora. Tinha ido até ali para ver a "caixa de óculos" e só descansava quando ela estivesse K.O. Ao olhar para ela deslizei o olhar para a mesa dos congéneres. Eles estariam nitidamente a torcer por mim. Elas, definitivamente, não. Ah! Já me ia esquecendo.... descrição da S.:
Copy Paste das anteriores. Ela era uma delas. Eu era apenas um corpo estranho que tinha entrado para aquele organismo, mas para o qual elas já tinham encontrado a cura. E nem foi preciso chamar o Dr. House. Bastou-lhes chamar a S. Estes segundos levaram uma eternidade a passar, até ela voltar a abrir a boca:
- Foi por isto que me deixaste?
Acho que o "isto" e a "caixa de óculos" representavam uma só pessoa... Guess who!
- S., não volto a dizer-te, vai-te embora!
- Eu? O restórante é público, eu posso estar aqui se me apetecer.
- Mas não podes estar nesta mesa.
- Deve ser boa na cama, a tua amiga nova, porque nem percebo o que mais viste nela!...
A "tua amiga", a "caixa de óculos" e o "isto" acho que eram palavras para falar sobre mim. Como é que ela adivinhou o resto sem sequer saber o meu nome é que me causa estranheza...
O JB levantou-se. Yes, temos barraco!!! Não participo, mas não nego uma boa manifestação popular de lavagem de roupa suja... Pegou-lhe pelo braço direito (eu teria preferido os cabelos, mas aqui a "caixa de óculos" continuava calada, nariz empinado, a dar uma de indiferente). Olhei-lhe a cara. Não estava à altura do corpo, mas não estava nada mal.
- Já te disse para te pores a milhas!
Ela sacudiu-lhe o braço, e disse:
- Eu não estou a falar contigo, estou a falar com ela!
Era a minha deixa. Agora que me meteste no meio, não te safas.
Sorri-lhe cinicamente. Perguntei-lhe na minha melhor dicção:
- Comigo?
- Sim, contigo, porquê? Não posso?
- Então se é para falar comigo, vamos combinar algumas coisas... - ela continuava de mão na cintura (quase aposto que estava a bater com o pézinho no chão). Levantou o queixo num repente como quem me dizia para falar. Por isso, continuei:
- Primeiro, vou-me apresentar. O meu nome é Bad, não andei consigo na escola, por isso não me trate por "tu", que não nos conhecemos de lado nenhum.
- Olha, deve achar que é Doutora!...
O JB ia falar. Acenei negativamente com a cabeça. Voltei a olhar para ela:
- Não devo achar. Sou. Mas isso é irrelevante agora. Porque agora acho que se devem sentar os dois. Dói-me o pescoço e não me apetece levantar.
Hesitaram. Ele sentou-se primeiro. Ela olhou, num misto de desentendimento e surpresa. Puxou a cadeira que estava ao lado dele. Ele afastou-se um pouco dela. Ela olhou-me com alguma altivez, a achar que eu estava, de alguma forma, a ceder. Mal sabia que estava exactamente no lugar em que eu queria que ela estivesse.
- Agora que estamos todos sentados como pessoas civilizadas, tenho apenas duas coisas para lhe dizer antes de me levantar e ir embora. Tu, JB, vens comigo ou ficas a resolver os teus assuntos. Sem problemas, amigos como dantes.
- Vou contigo...
Ela olhou-o de lado. Eu sorri-lhe. Olhei para ela. Peguei na carteira, que estava pousada na cadeira ao lado da minha, abri-a e tirei de lá um objecto. Pousei-o em cima da mesa.
- Isto, S., é uma caixa de óculos. Como pode verificar, as diferenças entre mim e este objecto são óbvias.
Ela murmurou qualquer coisa entre dentes, e o JB disse-lhe, em tom firme:
- Falaste, agora ouves.
A confiança dele na minha defesa era inabalável.
Continuei para Bingo:
- Quanto ao facto de eu ser boa na cama, a S. acertou. Lamentavelmente o JB ainda não o sabe. Devo admitir que agora a coisa se tornou complicada de acontecer. Sabe que dizem que, quando vamos para a cama com alguém estamos a ir para a cama com todas as pessoas com quem essa pessoa já dormiu? Pois, ao olhar para si a minha libido esvai-se.
Ela olhava-me com ódio. Tenho a certeza que me teria tentado partir a boca toda ali mesmo, não fosse o JB funcionar como uma cerca eléctrica invisível que me protegia. Guardei a "caixa de óculos", tirei uma caneta da carteira. Olhei para ele. Ele anuiu com a cabeça. Levantamo-nos os dois ao mesmo tempo. Ele olhou para o dono do restaurante, agitou uma caneta imaginária no ar (acho que era para pôr na conta...), olhou para a S., ainda sentada, e disse:
- Vai para casa! És uma vergonha.
Claro que o golpe de misericórdia vinha a seguir. Ia ganhar uma inimiga para a vida inteira, mas tinha de o fazer. Estendi-lhe a caneta.
- É para si.
Ela não me disse nada. Como não pegava, eu pousei-a em cima da mesa. Olhei para ela, medi a distância da porta, voltei a olhar, e disse:
- Aponte todas as palavras que eu lhe disse e não entendeu. Quando chegar a casa pode perfeitamente ver o que significa no dicionário.
Já íamos a sair. Passamos pela outra mesa. Vi sorrisos na cara dos colegas, olhares de ódio na cara das esponJas. Percebi que as restantes mesas estavam ocupadas na sua quase totalidade. Senti-me mal, não gosto de escândalos. Senti olhares em cima de mim. Ao sair, ouvi-a vociferar com violência:
- Vaca de merda!
Não sei porque é que ela disse isso. O bife estava bem bom, a vaquinha devia ser de qualidade. E ela nem o provou, nem sei como pode ousar uma opinião!
Eu sei que isto parece um filme. Um filme não, uma novela mexicana. Daquelas que a SIC compra e adapta com argumentos manhosos. Às vezes, a realidade ultrapassa em larga medida a ficção. É que a realidade nem sempre faz o sentido que devia... Por isso é que eu precisava de tempo para organizar a narrativa, para organizar as ideias, e para relatar "a frio". E eu? Eu estou em retiro espiritual de JBs, ex deles, amigas delas, e jantares sem pés nem cabeça. Durante uns tempos não vão ver aqui o seguimento desta trama. Sinto-me com pouca paciência para cansar a minha beleza com gentinha!