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Por alguns momentos vou transformar este num blogue de gaja e passar-vos algumas informações importantes, que foram partilhadas pela minha sobrinha ao jantar:
Lição 1: gosta-se do Zé porque todas gostam do Zé. Ela também gosta do Zé. Porque todas gostam. Hello???!!!!
Lição 2: o Zé, porém, gosta apenas da Inês. Porquê? Porque ela tem caracóis. Óbvio.
Lição 3: o segundo tipo mais giro da sala é o Miguel. Sendo que não queremos namorar com o Miguel, porque ele tem os dentes porcos.
Lição 4: o Zé namora com a Inês. Não obstante o namoro, o Zé abraça todas.
Lição 5: o Pedro e o João provavelmente namoram. Porque ninguém gosta deles. Razão? São feios. Resta-lhes que se aturem um ao outro.
Até aqui as gargalhadas foram moderadas. Mas como começou ela a descrever o Zé (relembro, o tipo mais giro da sala e do qual todas gostam)?:
- Tem botas ortopédicas...
Porque é que, de repente, eu acho que o Pedro e o João são do mais giro que há?
Em suma: andam todas atrás do mesmo, gostam dos mais porcos ou dos mais excêntricos, eles não respeitam as namoradas, e os feios que fod@m. Está bem que ela tem cinco anos, mas conheço tanta gaja de trinta com perspectivas semelhantes...
Hoje, a minha sobrinha (cinco anos, quase seis) ofereceu-me de bandeja o maior desgosto de sempre. Numa conversa sobre futebol (na qual ela se meteu), eu disse-lhe:
- Sabes que nós não gostamos do Cristiano Ronaldo, não sabes?
- Eu gosto, tia.
- Não posso acreditar! Porquê (faca na mão esquerda, braço direito com veia palpitante)?
- Porque é giro.
- Não posso acreditar naquilo que tu estás a dizer.
E ela, creio que só para me enfurecer, remata:
- Não gosto da maneira como ele joga. Mas é giro.
Pronto foi isto. E eu não parei de chorar desde então.
Confesso que, apesar de adorara minha sobrinha, tenho alguma dificuldade em aceitar as saídas airosas dela para todas as situações. Tendo como certo que o poder de argumentação é bom em qualquer idade, encaixo mal que ela lhe alie a "criatividade" quando começa a "derrapar" numa explicação. Depois de lhe ter dito o que aconteceu ao Pinóquio por mentir ( e de descobrir que ela não se preocupa muito com isso porque ela não é de madeira e o nariz não lhe vai crescer), decidi usar argumentos religiosos (logo eu). A conversa foi mais ou menos assim:
- Antes de falares pensa bem no que vais dizer. Jesus ouve tudo e vê tudo, e não gosta que as pessoas mintam.
Ela, um olho em mim outro a apontar de soslaio para cima, responde-me em sussurro:
- Ele aqui não vê. Tem tecto.
Cheia de vontade de rir e com uma renovada dose de moral em cima, lá continuei:
- Isso é o que tu pensas. Jesus tem olhos especiais e ouvidos especiais. Ele vê mesmo que haja tectos e paredes, e ouve mesmo que fales muito baixinho.
Ela olhava-me extasiada. A aproveitar a ausência de perguntas por parte da criança, lá avancei eu:
- Então diz lá o que ias dizer.
A resposta óbvia:
- Esqueci-me.
A minha princesa, que hoje cumpre uma mão cheia de aniversários, um destes dias confessou-me no fim de um suspiro:
- O Filipe já não quer namorar comigo.
É parvo. Só pode. Mas quem raio acha ele que é para não querer namorar com a princesa mais linda do mundo?
- Deixa lá. Arranjas outro mais giro.
- Não há.
Era só o que faltava agora aquele trinca-espinhas ser o mais giro que há.
- Há, vais ver que há. Mais giro e mais esperto.
- Não quero.
Agora foi ela que teve uma coisinha má.
- Mas se ele não quer namorar contigo, o que é que vais fazer?
- Vou parar no meio do recreio e gritar muito alto: “Ninguém namora com o Filipe que ele é meu namorado”.
Apesar de um pouco pré-histórica, talvez até bastante impositiva, a clareza de pensamento não me pareceu mal de todo. Claro que, quando crescer, há-de fazer o mesmo com algum diz-que-disse, muitos requintes de malvadez e um bocadinho de cabrice. Vai fazer o mesmo pela calada. Em vez de atirar de frente, arma-se em sniper. Mas há-de acabar por fazer a mesma coisa. Mais grito, menos grito.
Foto daqui
Pois é. Ao contrário da sua tia mais gira (eu), que teve de ir a um restaurante cheio de gente lamechas e melosa (incluindo toda a entourage do CR7 - só faltava o próprio e a D. Dolores), a minha sobrinha ficou em casa. Ao contrário da tia mais gira (ainda sou eu) que nem uma sms lamechas a dizer coisas no São Valentim recebeu (fiquei desoladíssima, claro), a minha sobrinha de quatro anos recebeu uma carta do seu namorado. Quem? O Filipe, pois então.
Não é que a pirralha vai a caminho de ter uma relação mais longa do que qualquer uma das minhas?
Começa mal, isto...
... mas começa a ser demasiado óbvio:
Bad, a tentar domar a fera de quatro anos:
- Se te portares bem esta semana, no Domingo levo-te à neve. Vamos de manhã e voltamos à noite.
- E vamos de avião?
Eu, que por acaso estava a pensar na Serra da Estrela ou em Manzaneda (pindérica!), respondo:
- Não, vamos de carro.
- Oh... gosto mais de andar de avião.
Descobri hoje quão inglória pode ser a tentativa de demover uma criança de 4 anos de ideias consumistas, quando em pleno centro comercial:
Um destes dias fiquei lá em casa do meu irmão a tomar conta da minha sobrinha. Foi no mesmo dia que lhe dei um pirilampo, e ela lá andava toda contente com o novo bicho. Contei-lhe uma história, deitei-a, dei-lhe um beijo, e ela pediu:
Pois é. Ontem foi um dia pleno de desilusões. Desilusões grandes. Inesperadas. E tudo concentrado num pequeno ser de três anos e meio. Com a maldade semi controlada, decidi mostrar à sobrinha as maravilhas do mundo que nos rodeia. À falta de autorização para levá-la a esquiar, levei-a a conhecer um dos outros prazeres da vida (apropriados para a sua idade): o cinema. A verdade é que a montanha pariu um rato, e tanta expectativa criada na pequena, foi dar numa tremenda desilusão. Primeiro, estava escuro. Depois havia muita luz. Depois estava muito barulho. Depois cheirava muito a pipocas. Depois desesperou e quis ir para casa. Amargurada, decepcionada e incrédula, lá acedi aos pedidos da pirralha e saímos do cinema. Mas acham que a desilusão principal foi esta? A de ela não ter gostado de uma das coisas que mais me deleita? Não, isso não foi nada comparado com o que veio a seguir. Já no carro, conversa puxa conversa, e lá lhe pergunto de que é que ela gostava mais no infantário.Ao contrário da maior parte das pessoas, não vou pôr-me com falsas modéstias: sou gira, sou inteligente, sou interessante. Mas também sou Má... como todas as mulheres, não é? Como perceberão com as leituras, e como este é um reflexo de mim, naturalmente tenho um blog bipolar!