
A ida ao teatro de uma pessoa como eu, para assistir a uma peça com o nome que ali está em cima, só podia dar confusão. Chegada à porta do Teatro Sá da Bandeira, nome que está guardado no meu imaginário pela projecção de filmes com nomes tão "sui generis" e explícitos como aquele que podemos ver lá em cima, decidi ir levantar os bilhetes que havia comprado uns dias antes via internet. Na crítica à peça, li num qualquer jornal que o local da representação escolhido não podia ser outro que o Teatro Sá da Bandeira, com o seu estilo decadente-chique. Continuo à espera de perceber onde está o chique. Quanto ao decadente, a coisa desenhou-se logo à chegada, na minha cabeça. Os anúncios que cobriam as paredes falavam de bailes, concertos de duos tão interessantes como "Zé Tó e Nando" (não era, mas já não me lembro dos nomes verdadeiros. Acho que é a parte selectiva da minha memória a mostrar trabalho). Atrás de mim, uma daquelas máquinas de fotos instantâneas que já só conseguimos ver nos apeadeiros das pequenas vilas do País. E uma informação sobre a nova residência das belas obras cinematográficas que antes faziam do Sá da Bandeira o cinema mais frequentado por pessoas que ainda não tinham aderido ao "Sexy Hot" na TV Cabo...
O senhor da bilheteira, quase aposto, já lá trabalhava nos idos dias em que actrizes com nomes como "Houston 500" faziam brilharetes na Sala de projecções.
Demorou cerca de 17 minutos a "despachar" o casal que estava à minha frente. Eu estava convencida que o senhor de fato de treino lilás e a senhora de casaco vermelho, saia verde e meias de renda pretas iam comprar bilhetes para o baile do fim-de-semana. Comecei a ver a minha vida muito mal parada quando percebo que os senhores vão para a mesma peça:
- Bimos lebantar os bilhetes da Rádio Festibal...
Oh, não, mas porquê, meu Deus?
Ao que Deus respondeu:
- Não dizes que és agnóstica? Então não me metas no assunto!
(Bad, a esquizofrénica)
Os senhores saíram-me da frente. Antes disso, e após eu ter ouvido as palavras "Rádio" e "Festival" ditas por esta ordem, olhei em volta. E o ambiente era... ecléctico. To say the least.
Olha-me com um ar desconfiado quando lhe entrego o meu "print" da plateia.pt.
- Só tem isto? Num tem outro?
- Não, só tenho esse. Mas porquê?
- Porque isto num tem nome. Eu sei lá se foi a menina que comprou isto!
Ah, ah!
- Mas isso não importa... Pode ser outra pessoa a comprar. Desde que tenha aí a prova de compra...
(Bad, a pedagoga)
- Esta gente num manda nada e depois ficamos nós a olhar para os clientes... Bem, bou-lhe dar os bilhetes.
Ah, bom...
- O mais para a frente possível, se puder ser...
(Bad, a pedinchona)
- Menina, Plateia é do "M" para trás...
- Oh, que pena... uma das minhas amigas faz anos e eu gostava de lhe fazer uma surpresa.
(Bad, a mentirosa)
Ele olha-me com cumplicidade. Pousa o molho de bilhetes amarelos que tinha na mão, e pega numa verde:
- Bem, bou-lhe arranjar aqui uns da fila F. Só espero que agora num me apareça aqui gente a mais com bilhetes para a "Orquestra"!
E pronto, com quatro merdicas de papel verde na mão, iguaizinhos às rifas vendidas pelos escuteiros em altura de peditório, lá fui eu, com o chique possível dentro do ambiente degradante que me rodeava. A peça, essa, tal qual a Nossa Senhora: cheia de graça!